Carta-aberta-manifesto-pela-descriminalização-do-apego

Oi, eu sou o apego e venho vos falar porque há muito tempo eu ouço pessoas usarem o meu santo nome em vão em qualquer mesa de bar, com frases sem o menor cabimento, como “ah, desapega disso, fulano”, e, para esclarecer de uma vez por todas quem realmente sou, estou aqui hoje.

Para isso, o primeiro ponto que se faz necessário é saber: eu não sou um sentimento nobre, e dito isto, eu não tenho antônimos, assim, do tipo preto no branco. Apenas os sentimentos nobres possuem, como o amor e o ódio, por exemplo. E, como eu sei que nos identificar pode ser uma tarefa difícil no começo, já que o mundo anda tão cheio de novas regras, vou compartilhar algumas dicas, e, quem sabe assim, você, estimado leitor, possa me ajudar colocar um ponto final neste sofrimento que há tanto me assola.

Costumo usar essa técnica linguística boba para nos identificar os demais sentimentos, mesmo sabendo que algum pseudoletrado irá tentar desmerecê-la em seguida. Contarei, é claro, sobre outras, mas, a princípio, tenha em mente que: os sentimentos naturais, em sua maioria, permanecem sempre ao serem pronunciados.

Eu, o apego, ando sempre com alguns outros da minha turma, que, assim como eu, não possuem o tal antônimo. Nós, naturais, precisamos ser lembrados radicalmente, indiferente da situação na qual estejamos inseridos. Dentro dos alguns bons exemplos que posso citar, temos um afetuoso amigo meu, o cuidado (descuidado), uma menina linda (e tão difícil de se ter por perto) chamada confiança (desconfiança) ou o sr. Respeito (desrespeito), tão bem conceituado na sua versão original que vem sempre acompanhado do seu R maiúsculo. Todo prosa ele.

E eu sei que esse ponta pé inicial de identificação não é suficiente, mas é um ponto a ser considerado. Pra chegar lá e acabar com a nossa má reputação de vez, é preciso nos entender um pouco mais a fundo. É preciso de um pouco mais de calma.

Pois bem: sou diferente do mimo. E isso eu gostaria de deixar extremamente claro logo de antemão. Nada contra ele, coitado, até consigo entender a necessidade que vocês têm da presença dele, e reconhecer a sua fundamental importância para o amor, que por vezes é todo tímido e vem, devagarinho, dar as caras e aparecer. Mas eu? Eu estou longe de ser ele!

Por causa de toda essa mistura, também estou com relações cortadas há muito tempo com uma das seis irmãs do orgulho, a avareza. A avareza tem se colocado na minha cola, se passando por mim em situações como “nossa, ele era tão apegado às coisas materiais”, e sou eu quem sempre saio perdendo nessa relação: “avarento, apegado, por isso não teve nada na vida”. Veja só! Levo a culpa por algo que eu não posso nem me defender.

Em tempo: acredito que, por essas e outras, essa família é conhecida como “os sete pecados capitais”. Se disfarçam de qualquer um de nós, naturais. Até a fome entra na dança com a tal da gula. Mas isso é papo para uma outra conversa.

Voltando, comecei por esses, porque, sendo eu um sentimento natural, ser comparado ao mimo e à avareza me causa um enorme constrangimento: esses dois são criados conscientemente por causa do entorno. É tão fácil perceber!

Eu não. Eu cresço dentro de ti, indiferente dos seus pensamentos ou escolhas; do que você admita ou não; do que seja certo ou errado. Eu estive acompanhando você desde o colo da sua mãe, ao lado do cuidado e da segurança. E é natural que eu seja presente. É natural que você me sinta: cresci de forma espontânea em você.

Estive no primeiro beijo, na primeira promessa de futuro, no primeiro ‘eu te amo’. Eu sou a projeção das coisas boas, dos sentimentos bons, do carinho. Nós, naturais, não somos sentimentos dotados de inteligência. Nós funcionamos automaticamente, como o sangue que carrega oxigênio para as suas células.

Reitero que eu não sou a saudade, apesar de termos muito em comum. A saudade é nobre, apesar de ter a mão pesada nas circunstâncias do dia a dia, e é consciente. Já eu, natural,  venho de uma parte que você nem se lembra. Um estímulo, sabe? E como resultado de todas as equações de felicidade do seu cérebro, ausento-me da culpa que carrego, como a gordura, que retém energia para quando o seu corpo precisar.

Eu já disse: não sou nobre! Mas, veja bem, isso não me impede de ser bonito, sabe?

Eu sou lindo se você, amigo, souber me olhar. Se perceber o reflexo de tudo de bom que carrego comigo – não essas coisas ruins que andam dizendo por aí. Essa associação mal feita, mal produzida e que faz com que eu seja até tema de campanhas publicitárias por aí. Eu, veja só, eu que sempre mantive meu funcionamento escondido e fui discreto, atuando em background dentro de você. Um verdadeiro disparate!

Portanto, sabendo que não há nada mais natural do que as pessoas não saberem lidar com naturalidade dos sentimentos naturais do seu organismo, apresso-me para dar a última cartada para por fim a essa conversa, contando um segredo (que nem é tão segredo assim, vai), para que você entenda:

Nós, os sentimentos naturais, possuímos apenas lados e, no fundo, somos a mesmíssima coisa dos nossos antagonistas. Eu e o desapego caminhamos juntos, como faces de uma mesma moeda. Eu me giro e aponto um caminho: automaticamente, o desapego vira para o que eu estava olhando inicialmente. Assim como quando você descuida de alguma coisa por automaticamente cuidar de outra, ou quando você desrespeita alguém, respeitando o que você tem de bagagem e anseios lá dentro de você. Até a culpa e a desculpa, se você não sabe, são sentimentos naturais. Iguaizinhos a nós.

Portanto, na próxima vez que você ouvir ou falar sobre “praticar o desapego”, lembre-se que isso nada mais é do que se apegar novamente a algo que lhe faça bem. E que essa é a forma mais rápida para você ir de encontro a uma grande inspiradora e amiga minha: a felicidade.

 

Ps.: obviamente este texto foi escrito por um taurino, no caso, eu.

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Geração Tribalista

Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: ´eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também.
No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração ´tribalista´ se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.
A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu.
Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo – beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como:
Não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc.
Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor.
Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter ´alguém para amar´.
Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento.
Arnaldo Jabor
[ou não]

Não sei se a autoria do texto é do Arnaldo Jabor, mas isso pouco importa. Para mim, o que importa é que ele já foi reproduzido diversas vezes na minha timeline e, humildemente, se eu pudesse, gostaria de responder ao autor.

Li o seu texto. E não achei muito justo.

Ao apresentar os ingredientes do “bolo” daqueles que o senhor definiu como “geração Tribalista”: solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição, acredito que algumas informações ficaram pendentes, e, apesar de eu não entender muito sobre culinária, gostaria de apresentá-los.

Estes “ingredientes” também estão sendo utilizados no bolo daqueles que não fazem parte da “geração Tribalista”. Consultórios terapêuticos e ouvidos alheios alugados não são exclusividade dos solteiros. Para se ter uma ideia, em 2011, o Brasil bateu recorde no número de divórcios, atingindo 351.153 separações, segundo informações do Registro Civil. Um número 45,6% superior a 20101. Já a PUC-SP, ministra um curso de pós-graduação em “Terapia Familiar e Terapia de Casal”, no valor de R$ 22.236,12 com duração de apenas 510 horas2. Isso me leva a crer que há interesse nesta área, e que o retorno é, provavelmente, garantido. Eu poderia continuar o resto do texto citando o resultado de pesquisas que indicam que o modelo de relacionamento tido como padrão está em constante transformação e que isso é resultado de um processo natural e histórico (quanto mais desenvolvido um grupo de pessoas, menor o nível de dependência entre elas, portanto, maior a liberdade de se relacionar), mas esse não é o meu ponto.

O que mais me incomoda, na verdade, é a forma com que as pessoas colocam essas duas situações. Como se elas tivessem que ser comparadas o tempo inteiro e uma delas fosse melhor. Eu poderia falar dos “ingredientes” bons e ruins dos dois bolos, pois já estive dos dois lados.  Ao meu ver, cuidar do outro, ter mãos para enxugar lágrimas e ter boas companhias, além de não ser exclusividade de quem namora, não é uma uma coisa tão frequente entre casais (inclusive de namorados). Acredito que esse padrão aconteça nos apenas nos primeiros meses, onde as pessoas encontram-se apaixonadas, caso contrário, não haveria uma demanda de profissionais para “consertar” relacionamentos e uma taxa tão alta de divórcios.

Concordo quando você diz: “ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém (…)  é ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento”. Mas, acredito que ser solteiro também signifique se permitir viver um sentimento. Se conhecer, se curtir e se testar em situações são exemplos claros disso. A vida é um misto de acontecimentos repentinos e, para mim, ter coragem significa encará-los de forma autêntica. E isso nada tem a ver com as pessoas livres que querem beijar na boca.

No mais, a interpretação de “eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”, é extremamente pessoal. Eu me considero de todo mundo, e que todos são meus também. Pra mim, tem mais a ver com a frase “e pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto” da letra do Mistério do Planeta dos Novos Baianos, do que um grito de liberdade da libertinagem.

 Fontes:
1 – http://noticias.terra.com.br/brasil/numero-de-divorcios-no-brasil-bate-recorde-com-crescimento-de-456-em-2011,0feaf4ff6c7ab310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html
2 – http://cogeae.pucsp.br/cogeae/curso/221

Crônica da primeira crônica

Lembro-me bem. Estava na sexta série do ginásio quando a professora de literatura nos apresentou os conceitos de crônica. Com diversos exemplos retirados de revistas, livros e jornais, fomos convidados a desenvolver uma narrativa sobre fatos cotidianos, os quais nós estivéssemos inseridos e pudéssemos passar algum tipo visão bem humorada e/ou irônica sobre tema de nossa preferência.

Numa classe com aproximadamente quarenta alunos e uma média de doze anos de idade, me vi sentado com uma folha de fichário em branco sem saber o que eu poderia apresentar de diferente sobre as minhas experiências pessoais. Naquela ocasião, eu já estava acostumado a escrever e ler bastante, mas senti tamanha dificuldade (e responsabilidade), em fazer um relato em primeira pessoa que soasse real e fizesse sentido frente a todos os outros textos que eu havia lido até então.

Fiquei dez minutos com o papel em branco e o lápis na mão, até surgir à ideia maravilhosa de escrever a minha primeira crônica. Redijo aqui:

A minha primeira crônica é simples e objetiva. Baseia-se no dia em que, aos doze anos, minha professora pediu que eu escrevesse um texto irônico e bem humorado sobre o meu dia a dia.

Não foi aceita, é claro. Levantei-me, talvez, muito breve para a pausa a qual ela ansiava para corrigir algumas provas e trabalhos de outras turmas. Acho que naquela época eu não consegui expressar-me suficientemente bem para que ela percebesse que não há, em nenhuma esfera, ironia no dia a dia de uma criança aos doze anos, senão o fato de procurá-la.